sábado, 16 de fevereiro de 2019

Jose Fernando Seifarth - Entrevista


José Fernando Seifarth, nascido em São Paulo, violonista e compositor, cofundador do grupo Hot Club de Piracicaba - HCP (2008) e idealizador do Festival de Jazz Manouche de Piracicaba. A profissão de juiz de direito não o impede de ser um músico versátil que transitanda pelo jazz manouche, passando pela country music e também tocando com sua Fender stratocaster o bom e velho rock n roll.

Lançou dois álbuns com o Hot Club de Piracicaba "Jazz a la Django" e "Quinteto do HCP". Lançou, ainda, o álbum "Nashville Sessions", gravado nos EUA com o Hot Club de Nashville. Participou dos álbuns "chama" e "caravane" do grupo campineiro Hot Jazz Club, e do "45 anos de estrada", da prestigiada Traditional Jazz Band.

Apresentou-se com Bina Coquet nos festivais internacionais de jazz manouche em Amsterdam (Holanda), Medellin (Colombia), Santiago (Chile), Buenos Aires (Argentina) e Langley (Estados Unidos).


E N T R E V I S T A  com  J O S É   F.  S E I F A R T H 

* Entrevista exclusiva para o blog Guitarra Manouche


1-Com quantos anos v começou a tocar?

J.F - Iniciei meus estudos de violão bem jovem, com 7 anos de idade. Inicialmente, estudei violão erudito com aulas bem formais em um conservatórío musical no bairro da Lapa, em São Paulo, chamado “Frutuoso Viana”. Depois de quatro anos, estudei um pouco de piano, mas definitivamente não era o meu instrumento (rs). Comecei estudar violão popular, guitarra e contrabaixo com o Professor Almiro. Fiz algumas aulas com o Sandro Haick também. Depois, tornei-me autodidata no estudo do country, especialmente o fingerstyle de Doc Watson e Merle Travis, utilizando-me de vídeos aulas da homespun tapes. Era muito difícil pedir estes vídeos, escrevendo cartas para os EUA e solicitando pelo correio. A internet, definitivamente, revolucionou o sistema de ensino e passou a nos oferecer imenso material de estudo. Fiz aulas com Otiniel Aleixo e, agora, pretendo me aprimorar em ritmos brasileiros com o Professor Marcos Moraes.


2-Como e quando você começou a tocar jazz manouche?

J.F - Depois de me formar em Direito e ingressar na magistratura, fiquei por alguns anos totalmente afastado da música. Porém, percebi que não poderia jamais deixar de tocar guitarra e recomecei, estudando country. Foi por meio do Cidão, baterista da Traditional Jazz Band e pai de minha colega de turma Marcinha, que fui apresentado à música do Django Reinhardt. Isso ocorreu em torno de 2000/2001, pelo que me lembro. Fiquei apaixonado pela música do Django. Alguns anos depois, resolvi ir aos EUA comprar um violão cigano (eles não existiam no Brasil à época) e adquiri alguns livros e DVDS didáticos de John Jorgenson, além da vídeo aula de Paul Mehling. Comecei a estudar o jazz manouche como autodidata e não parei mais. Apesar da falta de tempo, tento sempre estar em contato com o meu violão cigano. Vários amigos músicos deram-me verdadeiras “aulas particulares”, muito preciosas, como Bina Coquet e Robin Nolan. Acabei optando por ser um violonista de “la pompe”, a importante parte rítmica do jazz manouche. Ouço o tempo todo os grandes músicos, e sempre que tenho oportunidade, observo ao vivo a forma deles tocarem.


3-Quais são as suas influências?

J.F - Muitos músicos foram definitivos na minha formação e linguagem musical, relevando que eu não toco apenas jazz manouche, mas também rock, country e blues. O primeiro deles foi Mark Knopfler. Foi um desafio estudar, nota por nota, o solo de sultans of swing, quando eu ainda tinha 13 anos de idade. O segundo foi Chet Atkins. Gosto muito deste guitarrista, de seu estilo e de sua história. A partir dele, descobri Merle Travis, Doc Watson, Tommy Emmanuel e Richard Smith, tendo me tornado grande amigo deste último. No rock, minha referência sempre foi o guitarrista do Deep Purple Ritchie Blackmore, no blues B.B.King e Charlie Christian, no jazz, Barney Kessel e no manouche, Django Reinhardt, Romane e John Jorgenson. Ernani Teixeira, Benoit Decharneux e Bina Coquet tiveram grande impacto em minha formação no jazz cigano, tendo me ajudado muito em minha evolução como violonista rítmico. Atualmente, os ingleses Robin Nolan e Richard Smith são os músicos que mais me influenciam. São estudiosos, criativos, preocupados com a excelência em suas carreiras e muito acessíveis. São exemplos a serem seguidos.


4-Qual a sua visão sobre o jazz manouche no Brasil?

J.F - Lembro-me quando decidi formar o meu grupo, o Hot Club de Piracicaba, em 2008. À época, havia no Brasil poucas bandas. Recordo-me, no estado de São Paulo, do Hot Club do Brasil (SJ Campos) e Hot jazz Club (Campinas). A Traditional Jazz Band, apesar de tocar o jazz tradicional, incentivou-nos muito na empreitada com a nova banda. Conheci, logo depois, Mauro Albert, que tocava o estilo no sul do país e fiquei amigo de Benoit Decharneux, Ernani Teixeira e Marcelo Modesto, que tinham mais experiência com o jazz cigano. De lá prá cá, quanta coisa aconteceu. O festival de jazz manouche, iniciado em Piracicaba há 7 anos atrás, foi, sem dúvida, um divisor de águas: por sua causa, passaram a vir ao Brasil músicos europeus, americanos e sul-americanos que tocam o jazz cigano e houve uma maior integração dos grupos nacionais.

O jazz manouche brasileiro foi tomando corpo, com artistas fazendo música autoral, usando elementos da música nacional (Bina, Mauro, Jazz Cigano Quinteto, Seo Manouche, Gypsy Jazz Club). Surgiram vários grupos no Rio, Minas Gerais, Brasília, Espirito Santo, Paraná. Hoje, pode-se dizer que há músicos tocando este estilo na maioria dos estados brasileiros. Há belos álbuns disponíveis em CD ou no spotify, como os gravados por Mauro Albert e Louis Plessier, Gypsy Jazz Club, Bina Coquet, Jazz Cigano Quinteto, Almanouche, Seo Manouche, Epoti, Hot Jazz Club, Marcelo Cigano, só para exemplificar. O meu grupo, Hot Club de Piracicaba, recentemente lançou um álbum com participação de Robin Nolan, Howard Alden, Paul Mehling, Florian Crisitea, Sandro Haick, Eduardo Bologna, dentre outros. Na minha opinião, o movimento do jazz manouche brasileiro, que adquiriu maior vigor nos últimos 6 anos, é genuíno e original. O reconhecimento da importância do jazz manouche brasileiro está no fato de Jon Larsen convidar artistas daqui para fazer parte da Hot Club Records e inserir músicas nas coletâneas, e também do convite de Bina Coquet trio para representar o Brasil nos prestigiados festivais DjangoNW (Langley/EUA) e Django Amsterdam (Holanda). Além disso, podemos ver o grande interesse do SESC de várias regiões em promover o gypsy jazz, com realização de shows ou pequenos festivais. Tive o privilégio de tocar jazz manouche com artistas brasileiros ou estrangeiros que vivem aqui do Brasil, como Marcelo Cigano, Florian Cristea, Mauro Albert, Hot Jazz Club, Hot Club de Piracicaba, Jazz Cigano Quinteto, Roda Romani Trio, Benoit Decharneux, Bina Coquet, Flavio Nunes, Sebastian Abuter, Nando Vicencio, Danilo Viana, Thadeu Romano, Daniel Grajew... Espero em breve conhecer pessoalmente o Manouche Carioca e o Gypsy Jazz Club, dois grupos que vêm se destacando muito no cenário nacional, e os vários outros artistas existentes no Brasil! Há ainda cantoras que estão se dedicando (e muito bem) a este estilo, como Lucia Zorzi, Giuliana Nogueira, Pa Moreno e Mônica Mariano (isso só falando no estado de São Paulo). O que dizer? Eles todos são o exemplo de que se faz jazz cigano sério e de excelente qualidade no nosso país, a despeito de não termos tradição de tocar este estilo musical.


5- Quais são os seus projetos futuros?

J.F - No ano passo, fizemos um excelente intercâmbio com artistas da Argentina, Chile e Colômbia. Quero continuar a conhecer grupos brasileiros e internacionais e participar de festivais internacionais. Neste ano de 2019, Robin Nolan deve voltar ao Brasil e eu terei o prazer de acompanha-lo. Também aguardo o término do livro de Henrique Inglez de Souza sobre o “jazz manouche brasileiro” e programo um novo álbum do Hot Club de Piracicaba, com participação de convidados.

+info: https://hotclubdepiracicaba.com.br/





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